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O avião, o veneno e a senhorinha da horta orgânica

Por Leomar Daroncho*

05/07/2016 - Zelosas e bravas senhorinhas costumam cuidar de hortas orgânicas nas franjas da cidade. Enquanto isso, no meio da avalanche diária de informações, duas notícias produzem a sensação de que precisamos repensar os rumos da humanidade. Interromper a marcha da insensatez que nos envenena, adoece e mata!

A primeira notícia: ignorando os alertas e os apelos de expoentes do meio científico, dedicados à saúde pública, foi sancionada a Lei que autoriza a pulverização aérea de veneno em cidades - Lei nº 13.301/2016. O agrotóxico será pulverizado diretamente sobre áreas habitadas. Serão atingidas residências, escolas, creches, hospitais, cursos d"água, clubes de esporte, feiras, comércio de rua e ambientes naturais, centrais de tratamento de água para consumo humano e fábricas de alimentos. Inclusive hortas orgânicas de zelosas senhorinhas da zona urbana!

Serão atingidas, cruel e inadvertidamente, pessoas em deslocamento urbano, estudantes, bebês de colo, gestantes, idosos, carteiros, boêmios de ruas calçadas ou de terra e doentes em geral.

A segunda notícia: a Organização Mundial da Saúde - OMS divulgou números impressionantes sobre a ocorrência de suicídios no mundo. A cada semana, são 20 mil suicídios! Portanto, segundo a OMS, um milhão de pessoas por ano se suicidam. É uma quantidade anual de mortes maior do que a resultante de guerras e homicídios.

Embora o tema seja cercado de tabu, desde 1990 a OMS trata o suicídio como um grave problema de saúde pública. Há inclusive uma data em que se celebra o Dia Mundial de Prevenção ao Suicídio - dia 10 de setembro.

No caso do Brasil, preocupa o ritmo de crescimento dos índices, principalmente entre a população mais jovem. O suicídio já é a terceira causa morte entre homens com idade de 15 a 29 anos. Em regra, os distúrbios mentais estão associados aos casos de suicídios registrados no país.

Aprofundando a análise, a OMS indica a ingestão de agrotóxicos como um fator que aparece como mecanismo disseminado de suicídios. A partir daqui as notícias se entrelaçam.

Além da ingestão voluntária, a exposição ambiental aos agrotóxicos, involuntária, não pode ser desprezada como causa que contribui, indiretamente, para a produção dos números que preocupam a OMS.

Na plataforma Scielo - biblioteca eletrônica que abriga uma coleção selecionada de periódicos científicos brasileiros - há uma série de pesquisas acadêmicas que relacionam o acréscimo no consumo de agrotóxicos, em determinado período e região específica, ao crescimento dos casos de suicídio.

Um dos estudos mais conhecidos refere-se à cultura do tabaco, no município gaúcho de Venâncio Aires. Pesquisa de 1995 apontou suspeitas de relação entre os suicídios e o agrotóxico usado no tabaco - organofosforados. A revelação teve forte repercussão nos meios econômico, político e jurídico. O Ministério Público Federal instaurou Inquérito para investigar a relação.

No mesmo sentido, estudos do Instituto Nacional do Câncer - INCA têm apontado o maior risco das pessoas expostas aos agrotóxicos de desenvolver alterações neurocomportamentais, capazes de evoluir para quadros de depressão e suicídio.

É complexo o diagnóstico de algumas enfermidades. No caso dos transtornos mentais, que podem levar ao suicídio, é difícil rejeitar a teoria multicausal e a importante contribuição dos fatores ambientais, inclusive os produtos que envenenam o ambiente.

Assim é bastante compreensível o alerta da Organização Mundial da Saúde para a necessidade de limitar o acesso das pessoas a armas de fogo e a produtos químicos letais.

Certamente deveríamos estar preocupados com a autorização para que o veneno seja despejado sobre as nossas cidades por aeronaves que, até o mês passado, apenas estavam autorizadas a envenenar os campos. E os produtos utilizados para controlar vetores, urbanos, possuem os mesmos princípios ativos daqueles usados na agricultura.A zelosa senhorinha da horta orgânica, que talvez nem saiba ler, também receberá sua cota!

LEOMAR DARONCHO é Procurador do Trabalho 

Artigo originalmente publicado no Jornal A Gazeta do dia 05/07/2016

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